Viver no Japão

Marta Castro

O Japão deve ser um dos países mais idiossincráticos do mundo. Com uma cultura milenar, o antigo e sagrado coabitam com o mais tecnológico e Pop. Se há robôs como recepcionistas, nos serviços burocráticos, tudo funciona com papel e caneta e tens de ter o teu próprio carimbo à mão. 

Viver no Japão implica alguma gestão de temperamento, contenção da nossa comunicação gestual e compreensão da diferença cultural. Apesar das pessoas serem extremamente amáveis, prestativas e cordiais, não são bem recebidos os nossos beijinhos, abraços ou apertos de mão. Não significa menos simpatia, antes pelo contrário, as velhotas na rua dizem-te “olá” e vêm ver o teu filho na cadeirinha e dizer “kawaii” (fofinho). Podes ter pessoas que te abordam apenas para saber de onde és e desejar bom dia. Se pedires direções, provavelmente não te vão indicar o caminho, acompanham-te até à porta. A cultura de hospitalidade do país, é realmente sentida no dia-a-dia, por exemplo, no serviço ao cliente, o respeito e a calorosa simpatia são incomparáveis a outros países, incluindo Portugal. Entrar numa combini (loja de conveniência) ou outra loja ou restaurante, é sempre acompanhada por um sonoro “irasshaimase” ou “bem-vindo ” e quando vamos embora por “arigatou gozaimashita” “muito obrigada”. 

A sensação de segurança é incrível, podemos deixar o computador ligado num Starbucks juntamente com a mochila e a carteira para ir à casa de banho. Se te esqueceste do teu telemóvel ou carteira algures, muito provavelmente irás encontrar os pertences no mesmo sítio, no balcão das informações ou no posto da polícia mais perto. 

Os espaços públicos são altamente preservados e respeitados. Numa cidade onde caixotes de lixo são uma raridade, as ruas estão incrivelmente limpas. As casas de banho públicas, onde centenas de pessoas passam por dia, estão sempre asseadas. Existe um enorme respeito pelo que é público. Por exemplo, viajar de comboio, shinkansen, autocarro etc, deve ser feito em silêncio, para não incomodar o outro. As filas são respeitadas, tal como as entradas e saídas à porta dos transportes. 

A língua é sem dúvida a maior limitação, não é fácil encontrar no dia-a-dia pessoas que falem inglês fluente ou que se sintam à vontade a falar inglês. Marcar médicos, dentistas, restaurantes, reservar bares etc é sempre um desafio a não ser que se fale japonês, nem que seja um pouco “arranhado”.  

Apesar de conseguirmos encontrar restaurantes e bares a preços muito acessíveis, o custo da alimentação nos supermercados é superior ao de Portugal, especialmente os produtos frescos. A boa novidade, para quem gosta de peixe, como o típico português, é que conseguimos encontrar uma grande variedade de peixes frescos e a um bom preço. Por outro lado, os fornos domésticos no Japão são incrivelmente pequenos, pelo que apenas conseguimos colocar 2 postas de peixe a grelhar, por exemplo. O que mais me impressionou nos supermercados foi ver a maioria das frutas e vegetais serem vendidos em separado e não ao kilo e são bastante dispendiosos. 

Arrendar casa requer um mealheiro considerável no início, pois é normal o senhorio pedir 2 meses de avanço e ainda o que chamam de “Key Money”, uma taxa paga ao senhorio e  que não é devolvida no final do contrato. O melhor para procurar casa é encontrar uma agência que tenha trabalhadores fluentes na língua inglesa, se não, será mesmo uma dor de cabeça. 

Tóquio é uma cidade enorme, com quase 14 milhões de habitantes. A deslocação é bastante fácil, com comboios extremamente pontuais e com grande frequência e claro, os comboios mais rápidos do mundo. Não é necessário ter carro, na verdade, as bicicletas são o mais comum. É normal haver uma bicicleta com assento à frente de bebés e atrás para crianças.

A carta de condução Portuguesa pode ser facilmente reconhecida para a japonesa. Conduzir no Japão, há que ter em conta que se conduz à esquerda e apesar do gasóleo não ser tão caro como em Portugal, as portagens podem ser uma grande parte das despesas de deslocação. 

Viajar dentro do Japão é fantástico, pelas diferenças encontradas na paisagem como até de iguarias e tradições. Desde praias paradisíacas para snorkeling, a montanhas para caminhadas e desportos de Inverno, nascentes naturais, vulcões activos, lagos lindíssimos, a tudo isto é acrescentado o toque do Shinto, a religião original do Japão, que torna toda a beleza natural numa experiência espiritual.Posso dizer que apesar de viver numa cultura tão diferente, encontrei até maneiras de estar e valores com os quais me identifico, Tóquio tornou-se não apenas na cidade onde vivo, mas na minha casa e em mais um cantinho à beira mar plantado no meu coração. 

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