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Um testemunho de Madrid

Fomos de férias em família para a Tailândia e Singapura dia 25 de fevereiro. Os casos de coronavírus em Itália estavam a começar a aparecer, mas em Espanha não se falava de nada. A meio da nossa viagem na Ásia, recebi uma mensagem da gestora de recursos humanos da minha empresa a avisar-me que, pelo facto de ter estado na Ásia, quando voltasse a Madrid teria que trabalhar desde casa durante duas semanas, em quarentena. Pensei: “ora bolas, e se não me aceitarem a bebé de 11 meses no infantário? E se ela tiver que ficar em quarentena comigo? Como é que vou poder trabalhar?”

Na viagem de volta a Madrid, dia 10 de março, estávamos a fazer escala no Dubai quando li todas as mensagens dos meus colegas de trabalho num grupo: estavam a entrar em pânico porque a comunidade de Madrid tinha decidido suspender as aulas em todas as escolas a partir de dia 11. Pronto, agora era real: vou ter mesmo que fazer home office com a bebé em casa.

Mas o home office acabou por generalizar-se a toda a Espanha: até dia 14 ainda podíamos sair a passear, sem ter contacto com outras pessoas. A partir de 15 de março, todas as atividades de ócio ao ar livre foram proibidas. Com o estado de emergência ativado em toda a Espanha, as pessoas só podem sair das suas casas para ir trabalhar (no caso de não o poderem fazer em casa), comprar alimentos ou medicamentos, ir ao hospital ou apoiar algum idoso. Estaremos assim pelo menos duas semanas (eu acredito que isto vá durar um mês).

Vários colegas de trabalho estão a passar pelo mesmo que nós, a trabalhar a meio gás, enquanto cuidam de um ou dois filhos, muitos deles irrequietos e cheios de energia, o que faz com que não me sinta incapaz de todo. Estou a dar o meu melhor e sei que eles também.

Algumas coisas que ajudam a que estes dias sejam menos estressantes:

·       Preparar de véspera ou no fim de semana as refeições, principalmente os almoços – assim não perco tempo durante o dia a cozinhar e consigo dedicar o máximo de tempo possível ao trabalho.

·       Manter horários fixos: começar a trabalhar às 9h da manhã e desligar o computador às 19h. Parecem 10 horas de trabalho, mas pelo meio tenho que comer e dar comer, mudar fraldas, adormecer, dar atenção à minha filha, ir à casa de banho se possível… das 19h às 20h30 fazer exercício físico em casa, dar banho e jantar à filha e metê-la a dormir. A partir das 21h já tenho banhinho tomado e estou pronta para ler um livro, escrever algo, ver uma série ou finalmente fazer tarefas domésticas. Mesmo que no dia seguinte não tenha que sair de casa, tento não adormecer depois das 23h.

·       Espalhar brinquedos pela casa para que ela os encontre quando gatinha e fique entretida; também tenho recorrido a desenhos animados em português na televisão e, apesar dela ainda não ligar muito, o ruido de fundo acalma-a e dança com a música, fica muito mais tranquila.

·       Ser superprodutiva quando está a dormir a sesta: se tenho trabalho para fazer que exija mais concentração, deixar para quando tenho silêncio em casa.

·       Aceitar com alegria todas as vezes que a minha filha vem a gatinhar para ao pé de mim, interrompe o meu trabalho, agarra-me as pernas, levanta-se e pede colo – afinal de contas, é o melhor que tenho na vida.

·       Não ler tantas notícias nem consultar tanto as redes sociais: confesso que é difícil, mas todas as notícias falam do mesmo (só tragédia atrás de tragédia) e as redes sociais matam a nossa produtividade: ignoro o meu telemóvel durante algumas horas.

Cada pessoa sabe o que funciona bem e o que não ajuda. Eu adoro o meu trabalho e adoro a minha família. Poder focar-me nas duas coisas ajuda-me a manter a sanidade mental e a saber agradecer. Posso passar muito mais tempo com a minha família, ver a minha filha tentar dar os primeiros passos, participar nesta etapa tão importante da vida dela, dar-lhe comida todas as refeições, tentar ser criativa nas brincadeiras com ela, ver a sua evolução e o que percebe ou não percebe, ajudar no seu desenvolvimento e ensiná-la a ser feliz. 

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