Cada país com o seu problema-Terrorismo no Quénia

Tessy Gomes

Como devem de imaginar existem muitos problemas por cá, pobreza extrema, seca, fome, tribalismo, corrupção, por aí fora. Mas hoje venho-vos falar de outro problema em particular, e menos feliz, mas que tem grande influência e impacto na economia e turismo do país onde vivo – o terrorismo no Quénia

É um assunto que não pode ser ignorado e esta semana recebi um email por parte da Embaixada de Portugal no Quénia a dizer que há um aumento de risco de atentados terroristas no país. O Quénia já está em estado de alerta desde o início de Novembro de 2021, mas agora a probabilidade de acontecer em 2022 ainda é maior.

Vamos lá a um pouco de história.

O que é o Al-Shabaab? E de onde vem?

O Al-Shabaab é um grupo terrorista islamista, filiado do AL-Qaeda, que controla cerca de um terço da Somália. Traduzido do árabe para português, o seu nome significa “a juventude”.

A Somália, cuja capital é Mogadíscio, está sem um governo efetivo desde 1991. Foi nesse ano que vários grupos armados se juntaram para derrubar o Presidente Siad Barre, cuja ditadura durou 22 anos. Desde o golpe de Estado que a Somália é disputada por facções distintas num clima de guerra civil constante. O Al-Shabaab é um deles e tem sido até agora o mais violento de todos. O grupo está em expansão: em 2006 eram 400 combatentes e hoje acredita-se que sejam mais de 9 mil. 

No Quénia a recruta é feita maioritariamente no interior do país, ou seja, nas zonas rurais onde a pobreza e desemprego têm um índice elevado.

Porque é que há tantos ataques do Al-Shabaab no Quénia?

Desde a intervenção militar do Quénia no sul da Somália em 2011 para combater islamitas radicais somalis, o Quénia tem sido alvo de vários ataques particularmente mortíferos, nomeadamente contra o centro comercial Westgate em Nairobi, em setembro de 2013 (67 mortos), contra a universidade de Garissa (leste), em abril de 2015 (148 mortos), e contra o complexo hoteleiro Dusit, em Nairobi, em janeiro de 2019 (21 mortos). Em janeiro de 2020, o grupo Al-Shabaab, ameaçou o Quénia, avisando o país de que “nunca estaria seguro”.

Sem esquecer que o Quénia é atacado com frequência porque, também, alberga várias agências da ONU, muitas embaixadas, por ser uma potência económica regional e por ter muitos jornalistas estrangeiros, atraindo assim a atenção dos média internacionais cada vez que há um ataque ao país. Para além de que é uma forma da Al-Shabaab mostrar poder e capacidade de atacar além-fronteiras.

Quais são as medidas preventivas face ao terrorismo no Quénia

Primeiro, acreditamos todos, como população, que o governo queniano está a fazer o melhor e o máximo que pode para proteger os seus residentes. A entrada nos centros comerciais fica ainda mais demorada porque os carros e pessoas são revistados com atenção redobrada. Temos que sair dos carros, enquanto o patrulham, abrir as malas e sacos, passar pelo detector de metais e cães farejadores. Em muitos lugares públicos encontrarão também os militares. 

O que não se consegue evitar é um bom escândalo de corrupção, mas na verdade sabe sempre bem para apimentar a vida. O plano anunciado em 2014 pelo governo queniano foi de que iria construir um muro com cerca de 700km feito de cercas, barreiras de cimento, valas e postos de observação vigiados por câmaras de segurança. Até hoje, o que foi construído foram apenas 10 quilómetros. O “muro” é na verdade composto por duas filas paralelas com esteios de cimento e arame farpado. Há também uma vala com três metros de profundidade que serve para travar eventuais carros. Ao todo, estes 10 km custaram 3,4 bilhões de xelins quenianos – ou seja, 35 milhões de dólares, equivalente a cerca de 3 milhões de dólares por quilómetro. Os deputados quenianos começaram a suspeitar e perguntaram como é que uma cerca de arame de 10 km construída ao longo da fronteira do país com a Somália custou 35 milhões de dólares.

O parlamento do Quênia bloqueou qualquer outra alocação de fundos para “a cerca” e exigiu que o estado explicasse para onde foram os milhões de dólares gastos até agora. Outros foram mais longe e disseram que suspeitavam de corrupção – especificamente, que os “oficiais” podem ter-se aproveitado para roubar o dinheiro. Concluindo, agora a construção encontra-se suspensa e o projeto está sob investigação. 

Como é viver num país com terrorismo?

Na verdade, é como viver em qualquer outro país. Por vezes não nos lembramos até que seja emitido um novo alerta sobre possíveis atentados. E nestes momentos de alerta sim, passamos a suspeitar de indivíduos que tenham aparência ou comportamentos duvidosos nos centros comerciais, e infelizmente podemos passar a ter algum receio das mulheres completamente tapadas (uso do Nikab / Nekab) em que só os olhos são visíveis. Se isto é julgar?! Sim, infelizmente é. Por muito que se evite, o inconsciente acaba sempre por o fazer e o que não pode acontecer é entrar em pânico ou ser-se arrogante com estas comunidades. Porque no fundo nós é que crescemos a ver o que parte das notícias (muitas delas negativas) nos mostram sem na realidade conhecermos quem de facto são estas pessoas e a sua respectiva cultura.

Em 2016, quando fiz uma viagem ao largo costa queniana senti que o terrorismo estava ainda muito presente na memória dos locais. Questionaram-me se não tinha medo, porque tinha havido um ataque terrorista na praia e o sequestro de um autocarro a caminho de Lamu (uma das ilhas mais próximas da Somália). Vejo o impacto negativo que tem no paraíso turístico, que é a costa queniana por já não ser considerado seguro para os visitantes. Mas não deixem de visitar este mar quente do oceano Índico e praias de areia branca, vale muito a pena! 

Sugestão:

Podem ver a curta-metragem “Watu Wote” – “Todos nós”, que é inspirada numa história verídica do sequestro a um autocarro. 

Também podem ver o filme, na Netflix, “Uradi” – “O Plano”, não é dos melhores, mas tem parte do recrutamento e de como é a vida num acampamento.

Notas:

*Podem encontrar Al-Shabaab escrito de outras formas (Al-Shabab; Al-Shebab…).

*Este artigo não tenciona de forma alguma tomar partido ou incitar ao ódio entre diferentes culturas ou religiões. 

*Mesmo havendo terrorismo, o Quénia é um país seguro (vivência própria) e considerado um dos países mais seguros do Continente Africano.

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