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Suécia: a língua como fator de integração num país multicultural

Cheguei à Suécia em 2015 com a minha família. Uma mudança de vida encarada com entusiasmo e expectativa. A curiosidade era grande: uma nova cultura, novos costumes, novo emprego, nova escola e uma nova língua para aprender. Sabia que seria um desafio. Mas a realidade que encontrei foi uma surpresa em alguns aspetos…um país multicultural.

Primeiras descobertas

Os primeiros passeios pela cidade que nos acolheu, Norrköping, uma cidade situada 160 Km a sul de Estocolmo, foram um misto de alegria e ânsia pela novidade. Eram tantas as pessoas com que nos cruzávamos que não tinham aparência de povo nórdico (aquele estereótipo alto, loiro, de olhos azuis), que nos questionámos que realidade era aquela. Depois de lermos algumas estatísticas, de os nossos filhos começarem a escola e de eu começar a estudar sueco, compreendemos a dimensão da questão humanitária com que a Suécia se deparava.

Já nos anos 90, a Suécia tinha recebido refugiados da guerra da ex Jugoslávia; mais de 80 000 pessoas chegaram em 1992. Desde o ano 2000 foram entregues anualmente mais de 30 000 pedidos de asilo.

A aprendizagem da língua

Em 2015, ano em que chegámos, mais de 160.000 pessoas pediram asilo. Destas, cerca de 70.000 eram crianças, das quais mais de metade vieram sozinhas. A maioria veio da Síria, Iraque e Irão.
A sociedade tenta portanto, adaptar-se a esta realidade. Qualquer estrangeiro que chegue tem direito a aulas gratuitas de sueco (desde que tenha o ”personnummer”, número com o qual nos identificamos nos mais variados serviços públicos e privados). Comecei a estudar no SFI (”Svenska För Invandrare” que significa sueco para estrangeiros) que inclui 4 cursos de A, B, C e D.

No final de cada nível fazemos uma prova nacional (oral, escrita e de compreensão auditiva) cujo resultado permite a passagem ao nível seguinte. Nem todos precisam fazer os cursos mais simples. Na minha escola, havia uma cozinha muito grande onde davam as aulas para pessoas analfabetas (a maioria mulheres…). Começavam a aprender a língua com as coisas simples do dia a dia como utensílios de cozinha, alimentos, etc. Cada um estuda ao seu ritmo. O que nos é exigido é empenho.

Quem quiser continuar os estudos matricula-se na Komvux (”Kommunal vuxenutbildning”, que significa ensino municipal para adultos).

Aqui pode estudar o “grundläggande” (básico equivalente ao que um aluno sueco sabe no final do 9º ano) e o SVA 1, 2 e 3 (”Svenska Som Andraspråk”, sueco como segunda língua). Tive que completar os níveis todos para ter a equivalência no diploma de Ciências Farmacêuticas. A maioria faz o SFI e começa a procurar emprego.

A sociedade de um país multicultural

Esta minha experiência permitiu-me cruzar com pessoas incríveis, oriundas dos mais variados países, de diversas culturas. Pessoas que fizeram da Suécia um país multicultural. Umas vieram por amor e a maioria a fugir da guerra, com um passado de histórias trágicas. Pessoas com sonhos, esperança de um futuro melhor para si e seus filhos, mas muitas vezes com um olhar de preocupação constante pelos familiares que não conseguiram deixar o seu país. A maioria das pessoas com quem estudei saíram da Síria. Viviam bem. Muitos viviam muito bem.

Deixaram família, animais, empregos e casas. Muitas sabiam que não restava nada do que deixaram… Muitos com 50 e 60 anos, com dificuldades de aprendizagem da língua devido ao trauma (e à idade, claro).Percebi que sou uma sortuda por ter chegado a esta terra por outros motivos, por um caminho de paz. Cresci como ser humano. E essa é uma das vantagens desta “vida sem fronteiras”.

Trabalho como farmacêutica numa farmácia de internet. Durante a minha experiência profissional cruzei-me com várias(os) colegas oriundas(os) de países árabes, algumas/alguns casadas(os) com médicos(as). Esta onda de emigração vem colmatar a falta de profissionais de saúde e de outras áreas que a Suécia tem. É uma troca! De valores, experiência, oportunidades. Uns dão num determinado período e recebem noutro. E assim flui a vida neste país com uma diversidade cultural única!

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