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Singapura: uma cidade cheia de luzes que ofuscam a realidade

Singapura é conhecida por ser a cidade mais cara do mundo. Aos olhos de quem se distrai facilmente com luzes, brilhos e ruído, é difícil encontrar na cidade-estado mais do que restaurantes de luxo, hotéis com piscinas no topo do edifício e arquitetura espampanante.

Mas Singapura também sofre de problemas que são muito mais visíveis em qualquer ponto do globo.

Pessoas a viver no limiar da pobreza, idosos sem reforma ou pensão que continuam a trabalhar para ter sustento, assédio sexual e voyeurismo galopantes. Prostituição a olhos vistos em bairros que não vêm nos guias turísticos. Trabalhadores migrantes transportados como gado dos dormitórios gigantes onde vivem para os locais de trabalho, geralmente na construção. Racismo e xenofobia.

Claro que numa ‘ditadura benevolente’ nada disto chega aos meios de comunicação, controlados pelo mesmo partido desde a independência do país em 1965.

Singapura conta com os políticos mais bem pagos do mundo com a justificação de evitar a sua corrupção. No entanto a oposição é quase inexistente. O governo tem a última palavra em tudo e põe e dispõe sem olhar a justiça, igualdade ou direitos humanos.

Singapura tem pena de morte e os castigos físicos ainda existem

A pena de morte ainda está vigente, sobre tudo em casos de trafico de droga. Os castigos físicos imperam, com chibatadas para quem desrespeita certas leis.

Mas a lei não é aplicada a todos por igual. São quatro os grupos étnicos que consittuem a paisagem demográfica de Singapura: Chineses, Indianos, Malásios e Ocidentais (aquele grupo onde cabe tudo, desde europeus a australianos). A etnia chinesa detém desde as suas primeiras eleições ‘livres’ uma predominância abrumante. De facto, a constituição recolhe a necessidade de o primeiro ministro ser de etnia chinesa.

O racismo contra os cidadãos indianos, inicialmente levados para Singapura como prisioneiros para construir as prisões onde acabaram os seus dias, impera. Basta entrar no Facebook do Straits Times, o jornal do Estado, para ver os comentários. Seja qual for o artigo basta descer até ao terceiro comentário para encontrar alguém a culpar os indianos daquilo que for. Não importa a que se dediquem, o seu grau de educação ou o nível de trabalho.

Da mesma forma nem todos os trabalhadores têm os mesmo direitos. As empregadas domésticas, na sua maioria filipinas ou indonésias, só recentemente ganharam o direito a um dia de folga por semana e 15 dias de férias cada 2 anos. Se puderem escolher, preferem trabalhar para uma família de expatriados e não para uma família local. Dizem os chineses que nós, expats, estragámos as empregadas com dias de folga, férias pagas, iPads e contas na Netflix. Para nós é o mínimo que podemos fazer por quem toma conta das nossas crianças, cozinha as nossas refeições e limpa as nossas casas. Para eles, são luxos a que estas mulheres não têm direito.

Vindos na sua maioria do Bangladesh, os trabalhadores da construção civil, da limpeza de parques e ruas, dormem em edifícios construidos para o efeito, ondem cabem 15 homens por quarto, com instalações sanitárias partilhadas e nada de privacidade.

Foi nestes locais que o covid-19 se espalhou, chegando a atingir a vasta maioria dos 300,000 homens empregados por empresas que lhes pagam pouco e para quem a dignidade humana vale bem pouco. No seu melhor, o governo conseguiu dividir os casos de coronavirus entre ‘eles’ e ‘nós’. Mais tarde, passou a eles (trabalhadores), nós (singapurenses) e todos os outros (cidadãos permanentes mas sem cidadania, expatriados, estudantes) numa divisão que permitisse garantir que os cidadãos não eram a causa do problema e que o governo estava a fazer um excelente trabalho.

Em Singapura o pensamento crítico não é encorajado, as artes liberais são mal vistas e o importante é fazer dinheiro e mandar em alguém.

Só uma educação crítica levará a mudanças

Tudo isto é triste, mas tudo isto existe e sim, tudo isto é fado. E continuará a ser enquanto não houver mais educação fora do sistema oficial. Mais leitura de autores críticos com ditaduras, benevolentes ou não. Mais conhecimento da história dos que vieram antes para não cometer as mesmas atrocidades.

Mas este é um desabafo. Passei os últimos cinco anos em Singapura e durante os últimos meses foi difícil viver com tanta animosidade em relação a ocidentais.

Obviamente, não se vive cinco anos num país se ele não tiver coisas boas. Singapura tem muitas. Em breve, novo post.


  • Tambem vives num país com falhas graves de direitos humanos? Onde?

2 comentários em “Singapura: uma cidade cheia de luzes que ofuscam a realidade

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