Santos Populares e 10 de Junho em Nova Iorque

Raquel Ferreira

As festas dos Santos Populares são, sem dúvida, umas das celebrações puramente portuguesas de que mais sinto falta na minha vida no estrangeiro. Lembram-me a animação, calor e alegria que se vivia nessas noites de festa em Lisboa, onde cresci. Trazem-me à memória as ruas mais antigas da cidade que se enchiam de mares de gente, tendo como pano de fundo as grinaldas coloridas e balões de papel, os manjericos, o cheiro a sardinha assada e muitas mesas de gargalhadas.

Os grupos que planeavam encontrar-se: “Vais aos Santos? Então vemo-nos lá!”. Mas que depois se perdiam na multidão, entre outras gentes, corpos e sorrisos. Noites inesquecíveis. Na televisão, víamos no dia seguinte quais as marchas que tinham marcado presença, a freguesia vencedora (normalmente Alfama) e as noivas de Santo António.

Santos Populares nos EUA

Quando me mudei para os Estados Unidos, partilhávamos costumes, tradições e celebrações do país de origem entre amigos de diferentes nacionalidades. As festas dos Santos Populares surgiam-me como obrigatório de referir, mas difícil de descrever para os que nunca as tinham vivido. À medida que fui encontrando algumas comunidades portuguesas no Estado de Nova Iorque e em Nova Jersey, fui percebendo que há também uma longa tradição de festas de Verão que celebram o nosso país. Isto sucede, normalmente, na altura do 10 de Junho, não fosse esta a data do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. 

Em Manhattan, a comunidade portuguesa está mais espalhada, mas já tem havido pontualmente eventos como a Portugal Day Race no Central Park, em Junho 2011, o Pastel de Nata Extravaganza oferecido pelo Portuguese Circle,ou o maravilhoso Portugal in Soho, que acontece anualmente em Junho ou Julho desde há vários anos nesse bairro de Manhattan, organizado pelo Arte Institute. Esta é uma organização sem fins lucrativos fundada também em 2011 com o intuito de promover a arte, literatura, música, dança e cinema portuguesa em Nova Iorque e no mundo.

A minha família e eu somos presença assídua neste evento onde barraquinhas de produtos portugueses se estendem numa das ruas do Soho, acompanhadas de música, exposições, workshops, arte e muita conversa em português. 

Mas é fora de Manhattan, nas comunidades portuguesas mais antigas, que se dinamizam desde há décadas as festas tradicionais de celebração do 10 de Junho: no Clube Recreativo Português em Jamaica, Queens, no Luso-American Cultural Center, em Brooklyn ou, nos arredores de Nova Iorque, no Portuguese American Community Center, em Yonkers, no Portuguese American Club of Mount Vernon, ou o Sport Clube Português de Newark, que celebrou 100 anos em 2021.

Estes clubes recreativos desempenham um papel notável de manutenção das tradições portuguesas nas gerações mais novas de filhos e netos de portugueses que aí residem. Organizam-se paradas, como por exemplo a New York State Portugal Day Parade em Mineola, ranchos, jantares, concertos, bailes, feiras, e muito mais.

Muitas destas iniciativas são apoiadas pelo NYPALC – New York Portuguese American Leadership Conference, uma organização independente e sem fins lucrativos com 71 organizações associadas e que representa, promove e defende os interesses da Comunidade Luso-Americana no Estado de Nova Iorque. 

Todas estas iniciativas desempenham um papel essencial de união em torno de uma identidade comum. E as festas dos Santos Populares e do 10 de Junho celebradas em Lisboa, ou noutra cidade portuguesa, ou pelo mundo fora, são um dos meus exemplos preferidos desse sentido de ser português.

 Em nossa casa em Manhattan, o Santo António já está à janela.

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