Nómada digital, à 3ª é de vez

Catarina Leal Bacchi

Desde 2009, quando conheci o meu marido, que falamos em viver temporadas alargadas noutros países e trabalhar remotamente. Isto, antes sequer de termos ouvido falar sobre ser-se nómada digital, que me lembre. Ser nómada digital tem vindo a popularizar-se desde a década passada, mas, o conceito apareceu pela primeira vez em 1997 no livro “Digital Nomad” de Tsugio Makimoto e David Manners. 

Na verdade, nunca pensámos ser verdadeiramente nómadas, mas antes, passar alguns meses longe da nossa residência permanente em Sófia. Se houver outro termo para esta variante, por favor deixe um comentário em baixo. 

Da ideia à prática: 2 ensaios, como “nómada digital”, falhados 

Tirando o trabalho à distância que entra frequentemente pelas férias dentro (certamente que sabem do que estou a falar), tivemos duas pequenas experiências , estas planeadas, em 2011 e 2012, antes de termos filhos. Ele iria trabalhar remotamente a tempo inteiro e eu iria desenvolver projetos fotográficos. 

Em março de 2011 passámos 10 dias em Nice, França, onde vive a família paterna do meu marido. E em maio de 2012 uma semana em Skopje na Macedónia do Norte para eu fazer uma foto reportagem sobre o projeto Skopje 2014. Ambas experiências não foram muito positivas. 

Janelas em prédios tradicionais no bairro antigo de Nice em França
Muitas das casas no bairro histórico de Nice, localizadas em ruelas medievais, mal vêem a luz do dia. O pior que um nómada digital a trabalhar o dia inteiro a partir dum apartamento alugado, poderia desejar.

Nice, cidade velha: o apartamento das trevas 

Em Nice, alugámos um pequeno apartamento na cidade velha. A localização era fantástica, muito central e com um bom preço. O que não estávamos a contar era que um primeiro andar numa ruela bem estreita, mal vê a luz do dia… obviamente. Ou seja, ele passou os seus dias agarrado ao computador, a deprimir, ali enfiado. Minimamente o idealizado por um nómada digital. A minha experiência foi ótima já que estava um tempo fantástico e passeava pela cidade uma boa parte do dia. O mais positivo foi mesmo poder estar com a família e amigos à noite e no fim de semana. Logo aí começámos a reconsiderar a viabilidade de trabalhar remotamente. Ou teríamos todas as condições necessárias, casa com um terraço com uma vista fabulosa, com sombra, tomada para ligar o computador, internet de alta velocidade, ou não valeria a pena. É mesmo muito importante pensar antecipadamente onde vamos trabalhar.

Nómada digital, à 3ª é de vez
Fui para fotografar a construção relacionada com Skopje 2014, mas no primeiro dia andei antes a caminhar pela cidade inteira a fotografar as habitações do regime comunista. E já não tive oportunidade para o resto do projeto que tinha em mente.

Skopje: a urgência médica ao fim do primeiro dia 

Voltámos, no entanto, a ter uma pequena experiência em 2012 que seria só por uma semana. Em Skopje, o apartamento já não era tão deprimente, mas também não era tão central. No entanto, aqui a semana terminou logo no início. No final do primeiro dia de caminhar sem parar e de carregar com equipamento fotográfico, quando íamos os dois, jantar ao centro histórico, dá-me uma cãibra tão forte que só não caio no chão porque me agarrei a ele. Já não consegui caminhar sozinha. Voltámos para o apartamento no carro que tínhamos acabado de estacionar. Ligámos ao terapeuta que já me andava a tratar, ele indica alguns exercícios para me aliviar nessa noite e no dia seguinte voltámos para Sófia em modo de urgência e diretamente ao gabinete dele. Eu já andava a ter problemas de costas e ciática há um tempo e depois deste episódio tive visitas intensivas a neurocirurgiões, fiz testes e tratamentos de recuperação, incluindo acupunctura e yoga. Na verdade, queriam operar-me, mas achei que conseguia recuperar sem a operação e tenho conseguido gerir as minhas hérnias até hoje. A minha carreira fotográfica é que ficou por aí antes mesmo de vingar. Achei ter sido um sinal que deveria parar.

Tempo de reflexão, de recuperação financeira e de parentalidade 

A ideia de “viver” noutro país, ficou então “em águas de bacalhau”, também porque foram tempos muito exigentes no trabalho e fomos pais em 2014. 

Voltámos a falar mais a sério sobre o assunto durante um fim de semana em Malta em dezembro de 2018. Por mim, Malta estava perfeita para passar um tempo em jeito de trabalho relaxado à beira-mar. Mas o meu marido não estava muito de acordo porque queria um destino que fizesse sentido para os projetos da empresa dele. Na verdade ainda tinha alguma dificuldade em afastar-se fisicamente do resto das equipas porque afinal é muito mais fácil ter reuniões presenciais do que online. Agora, depois da experiência Covid, a empresa tem processos que facilitam ainda mais o trabalho à distância. Esperemos que em breve possamos voltar a pensar em “viver” noutro sítio.

A conversa de Malta em 2018 acabou por se materializar em 2019 num mês com o nosso filho de 5 anos, em Tóquio, no Japão. Para ler no próximo artigo Nómada digital em família e em Tóquio 1/2.

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