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As línguas dos filhos: ser bilingue num mundo global

Raquel Ferreira

Estima-se que cerca de 40% da população mundial seja bilingue, usando duas ou mais línguas no dia-a-dia. É sabido que ser bilingue ou multilingue traz diversas vantagens ao longo da vida. As vantagens sociais são claras: crianças bilingues tornar-se-ão adolescentes e adultos que comunicam e estabelecem relações com pessoas de diferentes línguas e culturas. Poderão ter oportunidade de trabalhar em diversos contextos onde idiomas diferentes sejam requeridos. A investigação tem mostrado que as pessoas bilingues demonstram maior plasticidade cerebral, melhor capacidade de executar tarefas e há até dados científicos que mostram uma ligação entre o bilinguismo e o adiamento da incidência de doença de Alzheimer.

Quando se tem família, estando emigrado ou expatriado, há naturalmente o desejo de que os nossos filhos aprendam, usem e dominem mais do que uma língua. 

O bilinguismo das famílias portuguesas

Como portuguesa a viver no estrangeiro e tendo os dois filhos nascidos nos Estados Unidos, senti desde cedo o entusiasmo de saber que eles iriam crescer bilingues. Na minha profissão como psicóloga, uso há mais de dez anos o inglês e o espanhol regularmente no meu trabalho com famílias em Nova Iorque. O contacto e interesse por este tema levou-me a procurar conhecer melhor o modo como as famílias portuguesas pelo mundo vivem o bilinguismo/multilinguismo dos filhos. 

Questionário

Criei um pequeno questionário que divulguei nas redes sociais, dirigido a famílias em que pelo menos um dos progenitores é português. Perguntei em que país vivem e qual ou quais as línguas que os filhos falavam em casa e na escola. Pedi ainda que identificassem fatores de sucesso, assim como entraves ao bilinguismo/multilinguismo nas suas famílias. Em menos de duas semanas, tive a agradável surpresa de obter 398 respostas ao questionário. Reúno aqui um sumário da informação que recolhi. Espero que possa ser útil a outras famílias portuguesas pelo mundo. 

Resultados

Entre as famílias que responderam ao questionário, atualmente residentes em 50 países diferentes do mundo, 96% das crianças falam português em casa. Muitas destas famílias falam, para além do português, outras línguas em casa: 48% das famílias falam também o inglês, 11% o francês, 9% o espanhol e 6% o alemão. As restantes línguas identificadas têm uma incidência de cerca de 1% neste grupo. Curiosamente, na escola, a grande maioria destas crianças usa o inglês (65%). Quanto à língua que as crianças falam com mais facilidade, as percentagens variam bastante, e o português não é dominante. Percebe-se que viver num país de língua estrangeira e manter a língua portuguesa pode constituir um desafio para as crianças nas famílias com coração português. 

Principais dificuldades

Apesar de muitas das famílias que responderam ao questionário não encontrarem dificuldades em educar crianças bilingues/multilingues, outras reconheceram que há uma clara falta de acesso a recursos de apoio à aprendizagem do português europeu falado e escrito nos países em que vivem. Por exemplo, gostariam de obter mais livros, músicas infantis e desenhos animados em língua portuguesa, assim como apoio educacional em português (ama, creche, etc.). Nalguns países, o sistema educativo não está preparado para lidar com crianças bilingues. E, se está, é raro oferecer a língua portuguesa como estrangeira na escola.

Por vezes, os pais de crianças bilingues deste questionário sentem resistência da parte das crianças em falar português em casa. Houve até famílias que indicaram que os professores pedem aos pais para não falarem o português, pois receiam que interfira com a aprendizagem da nova língua.

O percurso de uma criança bilingue/multilingue é por vezes pautado por fenómenos como misturar línguas, ou aprender a uma velocidade diferente da de outras crianças, ou ainda sotaques que podem causar mal-estar socialmente. Estas situações podem assustar as famílias e podem sentir-se perdidas, sem saber definir o que esperar ou que diretrizes seguir. Se a família vive em zonas onde há uma rede social portuguesa pequena ou mesmo inexistente, resta pouco tempo e oportunidades para expor as crianças à língua portuguesa. 

Soluções 

Foi fascinante ver a criatividade e empenho nas respostas das famílias ao questionário. Seguem as principais estratégias identificadas e que têm ajudado a um bilinguismo de sucesso nestas famílias portuguesas em que pelo menos um dos pais é português:

– Falar a língua portuguesa em casa;

– Responder em português quando a criança fala noutra língua em casa;

– Manter contacto com a família e amigos em português durante as férias em Portugal;

– Fazer playdates com crianças portuguesas no país de acolhimento;

– Ter contacto regular à distância com primos, tios, avós, amigos que falam português por telefone ou online (FaceTime, Skype, Zoom);

– Ver filmes, desenhos animados, vídeos em português (YouTube; canais que oferecem dobragem, como por exemplo Disney+);

– Ler livros, revistas, livros aos quadradinhos em português;

– Jogar jogos de tabuleiro em português em família;

– Ouvir música portuguesa;

– Criar ou participar em clubes de leitura em português;

– Estudar e/ou ter aulas de língua portuguesa;

E ainda… 

– Começar cedo na vida da criança a expô-la a diversas línguas;

– Usar o método OPOL: one person, one language, (se os pais falarem línguas maternas diferentes);

– Ter um espaço para cada língua. Por exemplo: português em casa, inglês na escola e a língua do país de acolhimento em situações sociais;

– A integração numa comunidade internacional no país de acolhimento;

– Cultivar a capacidade de adaptação, resiliência, flexibilidade e autoconfiança na criança;

– Ser consistente na abordagem escolhida em família;

– Persistência e regularidade no uso das línguas desejadas;

– Ter paciência, abertura e uma atitude descontraída quanto ao uso das línguas; 

Havendo diversos métodos de proporcionar às crianças a aprendizagem e o uso regular de várias línguas, por vezes é necessário adaptar as estratégias segundo a criança. Para além disso, é essencial ter uma atitude positiva em relação a este processo.  E não desistir, nesta grande viagem de educar crianças bilingues/multilingues no mundo global de hoje.   

Obrigada à Daniela Ribeiro Beard pela consultoria na revisão deste artigo.

Sugestão de leitura:

Be Bilingual – Practical Ideas for Multilingual Families, de Annika Bourgogne https://www.amazon.com/Be-Bilingual-Practical-Multilingual-Families/dp/9526803701/ref=tmm_pap_swatch_0?_encoding=UTF8&qid=&sr=

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2 comentários em “As línguas dos filhos: ser bilingue num mundo global

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  1. O artigo é muito claro. Dá aos pais conselhos práticos sensatos e úteis.
    Margarida Ferreira

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