Emigrar e a perda de alguém-até que a morte nos separe

Tânia Valente

O Paradigma emigrar e a perda de alguém… Quando a “opção” de emigrar se torna uma ação, sonhamos, planeamos e organizamos tudo, mas em algum momento pensei como seria enfrentar a tristeza de estar longe, a doença ou a perda de alguém.
Mudámos de vida para estarmos juntos como casal e para encontrarmos o que nunca conseguimos em Portugal – estabilidade.

Quando é isso que nos move, não pensamos nas consequências negativas, precisamente por estarmos imbuídos de ansiedade e felicidade.

Porque penso assim

Talvez emigrar seja uma boa opção para nós! Vamos lá!


Fui educada numa família onde não existem tabus nem segredos; todos têm opinião e o direito de a transmitir. A comunicação e o diálogo aberto são a alma das relações. Este lema foi-me passado sempre pelos meus pais e ainda hoje vivo desta forma a minha vida pessoal e profissional.

À quem não entenda que longe não significa ausente

Só quando as coisas começam a acontecer é que nos questionamos se fizémos bem em sair de Portugal, e é quando nos apercebemos do quão vulneráveis somos e de como não estamos preparados para uma situação de emergência. Não é num par de horas que nos “metemos” num avião e vamos para Portugal!

Temos que lidar com a incerteza, , com o desconhecimento de causa, com a gestão de emoções e, em última instância, com a dor.

Não consigo entender quando há familiares que, por estarmos longe, nos mantêm “no escuro” relativamente às “más notícias”. A título de exemplo: a pergunta que se coloca é “O que se passou afinal para um desfecho tão abrupto?”. Afinal não foi repentino! A pessoa já estava seriamente enferma porém, ninguém se tinha dignado informar-nos.

Nós estamos longe, mas continuamos a ser parte de um núcleo familiar e não estamos desaparecidos. Mesmo que não possamos fazer nada, temos o direito de saber tudo, tal como se estivéssemos em Portugal e em tempo real, afinal estamos à distância de um telefonema. Também temos o direito de nos preparar, de sofrer e de fazermos o nosso luto.

O facto de estarmos “longe”, não significa que estejamos no fim do mundo e não consigamos ser contactados de forma alguma. Quando familiares não partilham o que está a acontecer em tempo real, não é fácil para nós entendermos o porquê de nos quererem manter à parte.

Dois momentos muito difíceis

Até hoje, depois de mais de 8 anos na Noruega, passei por dois momentos muito difíceis. O primeiro foi quando soube que o meu pai tinha sido hospitalizado e operado. Estava na escola e tinha uma aula daí a 5 minutos. Mal entrei na sala de aula, queria sair para a rua e chorar. Senti-me asfixiar, literalmente. Não sabia o que fazer, só queria chorar e voar para Portugal.

O apoio por parte da escola foi fantástico, com carta branca para sair do país, se e quando eu quisesse. Foi duro, aceitar que não podemos fazer nada, apenas confiar que a nossa família nos mantém a par de tudo o que está a suceder. Há um aperto constante no coração quando não sabemos.
O não saber, o imaginar o pior cenário é bem pior que ser confrontado com a verdade.
Na cidade da Guarda, desde que nasci, a minha família sempre se resumiu aos meus pais, irmã e a sua família agora (tenho duas sobrinhas lindas) e ao meu avô José, meu avô materno.

Não me lembro da minha avó, que faleceu tinha eu dois anos. Diz a minha mãe que sou alta como ela, o que na altura não era muito comum, pois as mulheres não eram muito altas. O meu avô sempre falou dela como “a avó” e sei que tinha saudades, muitas saudades.

Ficou viúvo demasiado cedo o meu avô. Estava no Lar da Misericórdia da Guarda, há já 12 anos e como ele dizia, se não fosse aquele lugar onde ele se sentia tão feliz, já “teria ido” há muito tempo. Senão todos os dias, a cada dois dias os meus pais e nós, sempre que estávamos, íamos ao lar. Era muito bem tratado, tinha amigos, passeava pelos jardins, jogava às cartas, conversava com todos, muito amigo e agradecido às funcionárias, muito querido por todos e muito feliz. Dizia que nunca tinha tido umas férias tão boas como aquelas. Que mais se podia desejar?

O Natal de 2014 em Portugal foi igual a tantos outros. Matar saudades da família, rever amigos e matar saudades de muitos dos petiscos que a mãezinha cozinha. No dia 24 e 25 de Dezembro o meu avô ia sempre para nossa casa e ficava connosco, e o mesmo no dia 31. Era maravilhoso respirar a magia do Natal com a família toda reunida, com as gargalhadas, o contar e relembrar estórias, o jogar às cartas (que o meu avô adorava) e o vê-lo brincar e emocionar-se connosco e com as duas bisnetas. Sabem aqueles rebuçados que em Portugal às vezes oferecem com o café? Eu guardava-os todos e sempre que o ia ver (quase todos os dias) levava-lhos.

A felicidade do meu avô era contagiante, pois julgava que lhos trazia da Noruega. E às vezes oferecia a um ou outro utente e dizia “Estes vêm da Noruega!”, cheio de orgulho por ter uma neta na terra do bacalhau. Lembro-me tão bem.
Nesse ano, regressámos à Noruega depois das festas natalícias e todos estavam bem. Uns meses depois soube que o meu avô não estava bem, mas não se descobriu nada conclusivo, talvez demência.

Para mim, ser informada de O MEU AVÔ não era o mesmo, que não reagia à presença dos seus e não falava era para mim impensável de imaginar. Lembro-me da minha mãe me dizer para me preparar pois não era a mesma pessoa que eu tinha deixado, que eu devia ter a memória dele de quando me tinha despedido.

Sempre pensei que era uma pessoa bastante racional, mas não. As emoções de quem não acompanha a deterioração de um ente querido são muito difíceis de gerir.

Quando terminei o ano lectivo em Junho o Filipe, meu marido, disse-me que marcávamos um voo para mim para eu ir antes. A minha mãe disse que não fazia sentido e que o meu avô ia esperar por mim. Fomos para Portugal, aterrámos de manhã em Lisboa e seguimos imediatamente para a Guarda. Nessa tarde fomos logo ver o meu avô. Assim que o vi tive um choque.

Muito magro, prostrado na cama e sem reacção. Dei-lhe um abraço e um beijo e saí do quarto em lágrimas. Não estava, de todo, preparada para o que encontrei, mas tinha sido preparada por todos, só não quis acreditar.
O meu avô faleceu nessa madrugada.

Até hoje, e enquanto escrevo, emociono-me quando penso nas palavras da minha mãe, “O avô vai esperar por ti.” E esperou.

Em homenagem ao meu avô José Caetano Gomes (1916 – 2015), uma referência muito grande na minha vida. Um avô maravilhoso que deixa muitas memórias lindas e muitas saudades.

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