Emigrante em Espanha reconhecida

Ana Carreira

Entrevista à Daniela Santiago

Daniela Santiago, 47 anos, mulher, mãe, jornalista e emigrante em Espanha. Este nome, não passa despercebido quando falamos em jornalismo e na RTP. Com uma carreira de mais de 2 décadas no mundo jornalístico, em 2015 abraçou a oportunidade e partiu rumo a terras de “nuestros hermanos”, onde exerce a função de correspondente do canal público português. Recentemente, tivemos o prazer de entrevistar a Daniela, que foi reconhecida em Espanha e conhecer a sua experiência tanto profissional como pessoal, desta emigrante do outro lado da fronteira. 

VSF: Sabemos que faz parte da RTP desde 1996. No entanto, esta é a sua primeira experiência como correspondente internacional?

DS: Sendo residente deslocada foi a primeira vez, quando vim em 2015. No entanto, nestes quase 25 anos eu cobri muitos acontecimentos internacionais e alguns deles me fizeram estar cerca de um mês fora de casa…agora deslocar a minha família de Portugal foi a primeira vez.

VSF: Como tem sido esta experiência profissional em Espanha?

DS: Uma experiência muito enriquecedora a todos os níveis….Teria, provavelmente, sido mais fácil aos 41 anos de vida e quase 20 de carreira na empresa, ter ficado onde estava, pois estava a apresentar, estava na editoria de política e a fazer grandes reportagens, já há vários anos. (…) Eu entendi que a minha paixão pelo jornalismo, necessitava de algum “salero” e que o “salero”, aplica-se bem a Espanha. Há uns anos já tinha concorrido para correspondente nos E.U.A, na altura a Márcia Rodrigues, e muito bem, venceu o concurso. E então quando surgiu esta oportunidade em 2015, eu estava a cobrir a “crise grega”, em Atenas e na altura, abriu o concurso, concorri e ganhei. Enfim, há 6 anos que estou em Espanha, em Madrid.

Emigrante em Espanha reconhecida
Madrid

VSF: E a nível pessoal, como mulher emigrante, como se sente no país vizinho?

DS: Em termos profissionais foi um desafio muito grande, porque eu quando cheguei a Espanha numa altura em que tudo mudou!… Acabou o bipartidismo, houve uma crise política de 10 meses e que no fundo de acordo com o que os meus colegas me dizem, foi de facto um momento único. Com a crise na Catalunha, mesmo com a crise que envolve a Casa Real, a questão da 1ª. moção de censura que passou no Parlamento e o 1º Governo de coligação, foi um período muito rico e profissionalmente foi um desafio enorme, que eu tive que conciliar, com o facto de ter a minha filha a viver comigo. Para ela também foi um desafio muito grande, entrar para uma escola espanhola, ter de 100% falar castelhano, mas tudo correu bem!

Como mulher emigrante, confesso que não sinto grandes diferenças. Hoje em dia, eu acho que já não pertencemos a um único país, já somos cidadãos do Mundo e então os nossos filhos, são por completo. Eles já crescem, com essa mentalidade e é importante também darmos-lhes o Mundo e nós termos Mundo, para conseguirmos analisar as coisas e vê-las a uma determinada distância. Às vezes, temos que ter essa distância, para conseguirmos analisar e ponderar as coisas. Portanto, nunca me senti uma estranha no país onde estou (…) estou perto, a cultura não é assim tão semelhante como  se costuma dizer, a teoria dos “nuestros hermanos”, será pelo carinho que nós temos pelos espanhóis. Os espanhóis  estão a começar a conhecer mais Portugal agora, do que nestas últimas décadas. Nós não somos assim tão parecidos, existem muitas diferenças, mas o facto de estarmos perto, a uma distância de 50 minutos de avião de Lisboa é sempre diferente. No entanto, acabamos sempre por estar longe, o facto de ser correspondentes limita-nos muito, acabamos sempre por ser reféns da actualidade e não termos fins-de-semana, feriados, etc… E partir do momento que temos um filho na escola nesse país, não temos facilidade em  sair e acabamos por sentir saudades de algumas coisas que são nossas. Deslocada fisicamente estou, no entanto nunca me senti deslocada em termos de contexto da sociedade.

Emigrante em Espanha reconhecida

VSF: O que sente mais falta de Portugal?

DS: Do facto de poder ter os amigos ou a família ali, mais perto, porque depois dos 40, já temos um grupo de amigos que vamos criando laços e depois é difícil criar relações, como aquelas que já tínhamos. Sinto falta de algumas pessoas, da comida, do bom café (que agora já se encontra mais do que há 6 anos) ou determinados produtos que aqui não são tão valorizados ou comuns…o feijão pequeno ou um bom bacalhau.., ou seja a cozinha portuguesa, sair e poder comer um bom prato! Eu adoro experimentar coisas, mas ao fim de alguns meses já começamos a ter esse espírito de emigrante…a saudade de determinadas coisas. Então eu comecei a fazer tudo aquilo que antes me ria dos que os outros faziam. Mal chego a Lisboa, se possível, como um pastel de nata todos os dias (risos)

VSF: Gostaria de regressar a Portugal brevemente ou se tiver a oportunidade, permanecer em Espanha ou até mesmo partir rumo a um novo destino?

DS: Em breve poderei regressar, ainda não está totalmente decidido. Eu julgo que a vida é feita de etapas e acho que ao fim de um determinado tempo, há que fechar a porta e abrir uma nova janela. Muito possivelmente, por decisão minha, isso poderá acontecer, não fechando a porta a outros projetos internacionais, mas daqui a algum tempo. Vejo que tanto em termos familiares, como da própria escolaridade da minha filha, talvez seja o momento para voltar a fazer uma viragem.

VSF: Recentemente recebeu o prémio “Melhor Correspondente Estrangeira em Espanha”, como se sentiu ao receber este galardão?

DS: Senti-me extremamente lisonjeada, porque é um prémio que é atribuído pelos meus pares, por outros jornalistas de renome no país. Primeiro, Espanha é um país que tem correspondentes de todo o Mundo e vários, por exemplo França, UK, E.U.A, têm vários órgãos de comunicação social, desde a América Latina à Ásia, há centenas deles. E o facto do meu trabalho ser destacado, num ano tão importante, como o ano da pandemia é para mim, um gosto enorme e também um final dessa conclusão, de uma etapa que correu bem! Mas se calhar, também é um sinal de que há outra nova etapa que está para vir!

VSF: Por último, quer deixar alguma mensagem à comunidade emigrante portuguesa?

DS: Sim, eu dou muito valor e sempre dei às pessoas que procuram uma vida melhor, ou uma experiência diferente, porque a ideia que se emigra para ganhar mais, isso está muito ultrapassado. Sair da nossa zona de conforto, do nosso país, faz com que nos enriquecemos pessoalmente, profissionalmente e que consigamos olhar para as coisas com uma distância e dar mais valor e relacionar e comparar essas coisas, contribuindo para enriquecer o nosso próprio país.(…) Dou muito valor a quem emigra, somos todos embaixadores do nosso país e a todos nós cabe-nos um pouco esse gosto e esse peso de representar Portugal, porque qualquer pessoa no estrangeiro está a conhecer um português, está a conhecer um pedacinho de Portugal. E julgo que nos honra a todos e tiro sempre o meu chapéu a quem deixa o seu país, pelas mais diferentes razões, seja por trabalho, amor ou aventura, para viver, só vivemos uma vez e temos de procurar aquilo que nos pareça melhor.

Daniela Santiago escreveu também um livro:

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