A minha “saga” com a apostila de Haia

Alexandre Monteiro

Candidatura ao mestrado na Polónia e a minha “saga” com a apostila de Haia

Estudar no estrangeiro foi algo com que sempre sonhei. Desde os tempos de licenciatura que ambicionava poder estudar num ambiente académico internacional. Este ano candidatei-me a um mestrado na Polónia e vou-vos contar, neste artigo, como tudo se desenrolou. 

Vou descrever como decorreu o processo de candidatura ao mestrado na Polónia, o problema que quase me deixou fora do mestrado, e como a ajuda dos outros membros do grupo dos portugueses sem fronteiras foi decisiva para eu conseguir ultrapassar o percalço.

A decisão de voltar a estudar

Sempre tive a curiosidade de experimentar a experiência de estudar no estrangeiro. Nunca fiz erasmus, mas com apenas uma licenciatura, eu contemplava a possibilidade de prosseguir os meus estudos além-fronteiras. 

A vida, por sua vez, levou-me para o estrangeiro. Vivi quase 5 anos na República Checa, onde cresci imenso profissionalmente. 

Nos meus primeiros anos pós licenciatura, eu tinha a ideia de prosseguir estudos ou até começar estudos numa área completamente diferente. No entanto, à medida que os anos foram passando e a minha carreira ascendia, voltar à academia deixou de ser uma prioridade e a ideia acabou por ficar “na gaveta”.

Até que, no início do Verão de 2021, conheci um amigo em Gdansk que me falou de um certo mestrado em Varsóvia. Após pesquisar informação sobre o curso, pareceu-me ser a oportunidade ideal para mim. Decidi então candidatar-me.

A minha "saga" com a apostila de Haia
A Universidade de Varsóvia

O processo de candidatura

O processo de candidatura foi muito simples. Tive que me registar numa plataforma online para candidaturas, fazer upload dos documentos pedidos e realizar um exame de admissão.  

Os documentos pedidos foram: certificados de licenciatura traduzidos em Inglês ou Polaco, documentos que comprovassem a minha residência e legalidade na Polónia e um certificado de proficiencia em Inglês. 

Depois de fazer o upload dos documentos e de pagar uma taxa de candidatura no valor de 100 Zlotys polacos (o equivalente a cerca de 25 euros) fui aceite no exame de admissão. 

Sucesso!

O exame de admissão era bastante exigente, pois a matéria para estudar era muita. Depois de 6 anos de interregno, voltar a estudar tanta matéria revelou-se difícil. Chumbei na primeira fase de admissão. Mas não desmoralizei. Inscrevi-me no exame de segunda fase e estudei com esforço redobrado.  

O exame de segunda fase teve um grau de dificuldade ainda mais elevado do que o da primeira, mas eu estava bem preparado e, apesar do nervosismo, correu muito bem. 

Os dias que se seguiram foram vividos com grande expectativa e, no dia 24 de Setembro de 2021, a espera terminou. Os resultados saíram.

Para minha surpresa, a minha nota foi bem mais elevada do que o que eu esperava e acabei como o segundo melhor colocado da segunda fase de admissão, entre 32 candidatos.

Um percalço inesperado e o sonho “por um fio”

Na segunda-feira, 27 de Setembro de 2021, fiz as malas e saí da minha casa em Gdańsk antes do nascer do sol. Viajei no comboio da manhã para Varsóvia. A viagem tinha como objectivo matricular-me na faculdade e encontrar alojamento em Varsóvia para o ano lectivo. 

Cheguei a Varsóvia e o primeiro sítio onde fui foi a faculdade para entregar os documentos e concluir a inscrição. 

Qual não é o meu espanto quando me dizem que falta o documento a comprovar a validade legal do diploma! O documento em questão serve para comprovar a validade do diploma de licenciatura – obtido em Portugal – na Polónia.
“Que documento é esse? Uma apostila. Uma apostila? Mas o que raio é isso?” Eu pensava que, como cidadão da União Europeia, o simples diploma traduzido em inglês serviria, mas afinal não! “E onde posso eu obter tal documento?!” Foi-me dito que contactasse os serviços consulares. Meio em pânico, contactei a embaixada portuguesa em Varsóvia. A embaixada informou-me que tal documento tem de ser obtido junto da Procuradoria Geral da República e que o pedido teria de ser feito presencialmente em Portugal.

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A ajuda preciosa que me salvou de “Morrer na praia”

O grande problema era que o prazo para submeter os documentos era só até quinta-feira dia 30 de Setembro de 2021. Como iria eu conseguir obter uma apostila de Haia em apenas 3 dias? Parecia uma missão impossível. 

Logo a minha mente começou a ser invadida pelo pessimismo. A minha síndrome do impostor logo me dizia: “Pois, isto era bom demais para ser verdade! Tempo de descer à terra. Não há maneira de conseguir entrar neste mestrado”. 

Frustrado, desabafei o meu desespero com família, amigos e com o grupo dos portugueses sem fronteiras. A minha família e amigos demonstraram solidariedade comigo e a minha situação e deram-me mensagens de força. Mas aquilo que realmente fez a diferença foram as outras pessoas no grupo do Whatsapp dos portugueses sem fronteiras.

A minha "saga" com a apostila de Haia
Eu e a Joana Barbosa da equipa do Vidas Sem fronteiras

Várias pessoas vieram falar comigo e partilharam situações bastante similares ou ainda mais difíceis que a minha e deram-me conselhos preciosos para fazer face à situação. Estas interações foram vitais para mim. Senti-me validado e genuinamente apoiado.

Queria dedicar este parágrafo para agradecer a todos aqueles que me apoiaram e aconselharam, em especial à Joana Barbosa, que me recebeu na sua casa em Varsóvia e à Teresa Pereira, que me deu uma força fantástica. Queria também agradecer ao meu amigo Dzjanis, da Bielorrússia, que me ajudou a conseguir uma extensão excepcional para o prazo de submissão dos documentos. 

Corrida contra o tempo

Os conselhos e o apoio que as pessoas me deram fizeram-me ganhar o discernimento e a coragem de conseguir pedir um prolongamento especial de duas semanas do prazo para entrega da apostila

Entretanto, eu tinha contactado a procuradoria geral por telefone e foi-me dito para enviar o pedido de apostila por correio. Assim o fiz. 

Imprimi e preenchi o formulário de pedido de apostila, transferi o pagamento do emolumento no valor de 10,20€, anexei o comprovativo e o diploma de licenciatura para apostilar. Enviei carta para Portugal em correio registado prioritário. 

A minha "saga" com a apostila de Haia
Palácio da Justiça no Porto – onde fui apostilar os documentos

Concedido o prolongamento, decidi tentar tomar uma providência para além de ficar à espera que a apostila que pedi por correio chegasse de volta à Polónia (iria demorar vários dias). Decidi tentar marcar um pedido de apostila em pessoa. Tentei marcar em Lisboa, mas só havia vagas para dia 20 de Outubro. Tive então de marcar no Porto, para dia 7 de Outubro.

E na primeira semana de aulas lá voei para o Porto. Cheguei quarta feira, dia 6, à noite. Da 7 fui ao tribunal apostilar os meus outros documentos de licenciatura (o certificado de habilitações, a certidão curricular e o suplemento ao diploma). Mas, até aí me deparei com outro obstáculo! 

Foi-me dito que, por o documento ter sido emitido por uma instituição em Lisboa, não poderia ser feita a apostila. A única maneira de conseguir seria ir a um notário e pedir uma procura-forma para cada documento.

Foi o que fiz. Dirigi-me ao cartório mais próximo e pedi para que me fosse passada uma procura-forma para cada um dos documentos. Paguei 18,55€ por cada documento e dirigi-me de novo ao tribunal. Consegui, finalmente, que me apostilassem os documentos.

Resvés campo de ourique

Entretanto, enquanto estava no tribunal do Porto a tratar das apostilas, consegui que me dessem o contacto directo da colega do serviço de apostila de Lisboa. Telefone, e foi-me confirmado que o pedido tinha sido recebido e que no dia seguinte (sexta-feira dia 8) deveria seguir o documento apostilado para envio por correio. 

Consegui, contudo, que, ao invés de me enviarem o documento apostilado por correio, me permitissem levantá-lo em pessoa em Lisboa, no dia seguinte. Na sexta-feira de madrugada, pus-me a caminho de Lisboa. Mas, como não podia deixar de ser, tive de enfrentar mais obstáculos…

Eu tinha reservado um bilhete no Alfa Pendular das 6:30 da manhã. Saí do hotel na rua da Constituição às 5 da manhã e apanhei o metro para a estação de São Bento. O plano seria apanhar o comboio de ligação até à Campanhã e depois embarcar no Alfa para Lisboa. Só que nesse dia havia greve da CP e não partia nenhum comboio de ligação para a Campanhã que chegasse a tempo. 

Com 10 minutos para a partida e apeado em São Bento, entrei em pânico sem saber o que fazer. O que me valeu foi um segurança que me aconselhou a apanhar um táxi. E o taxista conduziu-me em tempo recorde até à Campanhã. Devido ao aviso de greve, o taxista alertou-me para a forte possibilidade de não haver comboio para Lisboa. 

Mas, naquilo que pareceu uma cena tirada de um filme de acção, eis que chego à estação exatamente um minuto antes da hora de partida. E vejo o comboio Alfa Pendular parado na plataforma à espera para partir. O comboio partia da plataforma número 9, que era exatamente no lado oposto da estação. Larguei a correr pelo túnel de acesso fora até chegar à plataforma. Subi as escadas num frenesim e consegui embarcar no comboio. 

Ufa, foi por um triz!   

Um final feliz

A viagem para Lisboa decorreu tranquila e sem incidentes. Chegado à Gare do Oriente, dirigi-me ao Campus da Justiça e levantei a tão desejada apostila. À saída, ainda me ia esquecendo da minha mala de viagem na sala de espera. Mas vá lá, que me dei conta a tempo. 

O voo para Varsóvia partia à hora de almoço, pelo que tive ainda tempo de ir tomar um bom pequeno-almoço e cortar o cabelo. Depois, dirigi-me ao aeroporto e embarquei no voo de volta para Varsóvia, bem mais descansado e aliviado. 

Na segunda-feira seguinte (dia 11 de Outubro), fui entregar as apostilas de manhã cedo. E passadas umas horas, recebi a confirmação da sua aceitação e fui formalmente admitido como aluno de Mestrado na Universidade de Varsóvia. Para comemorar, decidi oferecer-me a mim mesmo uns souvenirs da faculdade: mochila, canetas, cadernos, uma camisola e até um par de meias!  

Espero que tenham gostado da minha história mirabolante. E vocês? Já alguma vez precisaram de legalizar documentos para poderem estudar e/ou trabalhar fora de Portugal? Se sim, como foi a experiência?

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3 comentários em “A minha “saga” com a apostila de Haia

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  1. Digno de um filme…realizador a convidar Martin Scorcese !
    Felicidades para o mestrado…

  2. Boa sorte para o mestrado. Acho incrivel que nos dias de hoje existam processos presenciais, especialmente quando se reside no estrangeiro. Mas havendo boa vontade, tudo se resolve.

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